terça-feira, 27 de janeiro de 2015

SUBLIME TENTAÇÃO

Sublime tentação
Janet Dailey
For to love of God
Coleção Fascinação, nº 86
Editora Abril , 1981
Assunto Padres, freiras ou pastores

Seth Talbot era atraente, excitante, o tipo de homem que despertava a atenção das mulheres. E era também o novo pastor da igreja da pequena Eureka Springs. Um verdadeiro presente dos céus! Só que nada nele fazia lembrar um homem de Deus, nem o jeito informal de se vestir, nem o modo sensual de andar, nem o olhar ardente, cheio de promessas... Abbie logo viu que seria impossível ficar ao lado dele sem alimentar desejos inconfessáveis e sem atrair os comentários ferinos da comunidade. Seth era viril demais, rebelde demais, independente demais, e estava numa idade em que também era capaz de pecar...

CAPITULO I



O vento, soprando através da janela aberta do carro, naquele dia quente e úmido de verão, levantava os cabelos avermelhados que cobriam o pescoço de Abbie Scott, cau¬sando um efeito refrescante. Um par de óculos escuros, de enormes lentes ovais, repousava sobre o painel. Ela os tinha tirado algum tempo atrás, pois não queria ter uma visão artificialmente colorida do cenário.
A chuva matinal trouxera nova vida e luminosidade à paisagem de Arkansas Ozark, intensificando o verde das árvores e arbutos que ladeavam a estrada. O ar claro, sem um só grãozinho de poeira, também contribuía para aumen¬tar a beleza da vegetação luxuriante da montanha Ozark.
De vez em quando, os olhos cor de mel de Abbie desviavam-se da estradinha serpenteante para admirar as colinas cobertas de árvores e rochas. Nesses momentos, os pontinhos verdes em torno de suas pupilas quase davam a impressão de ser um reflexo da verdejante paisagem.
Tinha havido uma época na vida de Abbie, em que ela não soubera apreciar a beleza em torno de si. Queixa¬va-se, então, das estradinhas estreitas que serpenteavam pelas colinas Ozark, da falta de diversões e facilidade de compras oferecidas por cidades maiores, além das limita¬das oportunidades de emprego encontradas na área, cuja maior fonte de renda era o turismo.
Ao terminar o segundo grau, ela trocara a serenidade das colinas pelo excitamento de Kansas City. No começo, sentira-se contente, mas, aos poucos, a nova vida começara a perder o brilho. Um ano atrás, depois de quatro anos de ausência, Abbie voltara para Eureka Springs, sua cidade natal.
Muita gente, inclusive seus pais, não entenderam por que ela havia desistido de uma promissora carreira na Trans World Airlines, uma companhia de aviação sediada em Kansas City, que lhe oferecia tantas viagens e vantagens financeiras. Sempre que alguém lhe perguntava a razão, o que não era raro, Abbie respondia que ficara com saudades de casa. Mas isso não era inteiramente verdade.
Um homem fora a causa de sua volta, mas ela tinha muito orgulho para admitir que o romance entre eles dera em nada. Em princípio, viera para casa para chorar as mágoas, mas, depois de um ano, a distância lhe mostrara que o romance desfeito tinha sido apenas a última gota, e não a causa principal de sua volta.
Agora, em vez de ter um lucrativo emprego numa enorme empresa, Abbie trabalhava como secretária no escritório de advocacia do pai, ganhando bem pouco, em comparação com seu salário de antes. No entanto, fazendo uma certa economia, ela se ajustara bem à nova vida. Com o dinheiro que lhe sobrara do antigo emprego, reformara o cômodo que ficava sobre a garagem da casa dos pais, transformando-o num apartamento pequeno, mas funcional. Vivendo lá, gozava de várias vantagens: tinha privacidade, pagava um aluguel barato e estava perto dos pais.
E havia também Abel, seu carro. Abbie trocara seu veloz carrinho esporte, Porsche, por outro, mais velho e mais barato. Olhando-o, ninguém daria muito por Abel, como ela o chamava. A carroceria mostrava sinais de ferrugem e algumas batidinhas, além de ser bicolor, já que o azul do capo e da porta do passageiro não eram exatamente do mesmo tom que a pintura restante. Mas, se era possível para veículos terem personalidade, Abel tinha e muita! Ele era mal-humorado, tossia e resmungava tanto quanto um velho, mas não havia um pistão ou parafuso estragado em seu motor.
Quando a estrada começou a subir uma colina, Abbie mudou a marcha para uma segunda. O motor soltou um grunhido de protesto, mas Abel não hesitou, o que trouxe um sorriso a seus lábios.
Apesar de julho marcar o auge da estação turística em Ozark, havia pouco tráfego na estrada estadual que levava a Eureka Springs. A maior parte dos turistas preferia usar as estradas maiores, por isso Abbie só passou por veículos das redondezas. Além do mais, era uma tarde de sábado, e a maioria dos turistas já estava se divertindo nas áreas de atração local, em vez de na estrada.
Depois de enfrentar a hora do rush em Kansas City por tanto tempo, Abbie não deixava que as movimentadas estradas de Ozark á impedissem de visitar a avó, nos fins de semana. Vovó Klein continuava morando na fazenda onde vivera com o falecido marido, embora as terras de cultivo estivessem arrendadas para um vizinho. Ela ainda criava galinhas, tinha uma vaca leiteira e uma horta enorme, onde plantava mais legumes e verduras do que jamais poderia comer, ignorando totalmente o fato de que já estava com mais de setenta anos e deveria diminuir as atividades.
Ninguém visitava vovó Klein sem sair carregado com cestas e mais cestas de alimentos, e nada seria capaz de mudar isso. No chão, em frente ao banco do passageiro, Abbie estava levando vários potes de picles, além de um grande sortimento de geléias e doces em compota. No banco de trás havia dois sacos: um continha tomates, abobrinhas e milho, o outro estava cheio de pêssegos recém-apanhados, cujo delicioso aroma espalhava-se por todo o carro.
Á tentação era grande demais para resistir, e Abbie estendeu a mão para pegar um pêssego, exatamente quando se aproximava do topo da colina. A fruta ainda estava quente do sol e esguichou suco à primeira mordida, obrigando-a a usar alguns dedos para impedir que o líquido escorresse por seu queixo.
Quando começou a enterrar os dentes na pele aveludada da fruta para outra mordida, Abbie viu uma luz vermelha, de aviso, acender-se no painel do carro. Fran¬zindo a testa, ela tirou o pêssego da boca. Era raro o motor de Abel esquentar demais naquelas estradinhas cheias de subidas e descidas.
— Não perca a frieza agora, Abel — murmurou para o carro. — Estamos quase no topo.
Mas a luzinha não se apagou, mesmo depois que começaram a descida da colina. Quando Abbie viu o vapor escapando do capo, percebeu que estava com problemas e começou a procurar um lugar para sair da estrada. Quase um quilômetro se passou, antes que encontrasse um trecho de acostamento largo o bastante para acomodar Abel. Nessa altura, uma verdadeira cortina de vapor estava saindo do capo.
Depois de estacionar o carro, Abbie deu uma olhada para ter certeza de que a estrada estava livre e desceu para inspecionar o motor. Esqueceu-se de que estava segurando o pêssego, até precisar das duas mãos para levantar o capô. Agarrou-o então com os dentes, ignoran¬do o suco que começava a pingar em sua blusa.
Ela havia amarrado as pontas da blusa sob os seios, para combater o calor, e gotas de água escaldante espirraram em seu estômago nu, assim que abriu o capô alguns centímetros. Abbie pulou para trás, quase deixando cair o pêssego e salvando-o por pouco com uma das mãos, enquanto enxugava o estômago com a outra.
— Como pôde cuspir em mim deste modo, Abel? — censurou o carro, passando a mão molhada pela desbotada calça jeans.
De baixo do capô erguido saiu mais uma golfada de vapor, que logo se dissipou. Abbie aproximou-se cautelo¬samente, para ver se descobria a causa daquilo tudo. Havia um buraco na tampa do radiador. Seus ombros inclina¬ram-se para a frente, tão desanimada ela se sentiu.
Virando-se, Abbie olhou para a estrada, tentando se lembrar de onde ficava a fazenda mais próxima. Faltavam quase oito quilômetros para a cidade, e ela não estava disposta a andar nem um, naquele calor.
Um carro puxando um trailer aproximou-se e passou por ela. Esperançosa, Abbie olhou novamente para a estrada. Conhecia quase todos por ali e talvez conseguisse uma carona até a cidade. Mas, em hipótese alguma, aceitaria carona de um estranho.
Mais de dez veículos passaram, sem que ela reconhecesse os motoristas. Alguns diminuíram a velocidade ao vê-la, mas nenhum parou. E Abbie também não acenou para nenhum. Distraída, mordendo o pêssego, tentou decidir o que seria melhor: caminhar até a casa mais próxima, de onde poderia telefonar para os pais, ou esperar mais um pouco.
Foi então que um carro esporte verde-escuro surgiu na curva, aproximando-se de Abel por trás. O motorista diminuiu a velocidade, assim que viu o capô erguido. Ele estava com a capota arriada, mas o pára-brisa impediu que Abbie o visse com clareza. No entanto, quando ele estacionou atrás de Abel, ela notou a chapa de outro estado e sentiu-se meio tensa. Quatro anos vivendo numa grande cidade tinham-na ensinado a desconfiar de estranhos.
O motorista não se preocupou em abrir a porta do conversível. Saltando simplesmente por cima dela, aproxi¬mou-se do carro de Abbie. Era um homem alto, com mais de um metro e noventa, e naquela terra de turismo, não havia nada de estranho no fato de estar usando short, camiseta e tênis. Sua pele era queimada de sol, e os cabelos, despenteados pelo vento de uma forma muito atraente, tinham um tom dourado.
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